Tenho assistido a muitos filmes de horror asiáticos e tenho gostado imensamente. Eles estão resgatando o gênero, inventado pelo cinema ocidental, como o alemão e o americano, um estilo autenticamente cinematográfico. Contudo, principalmente Hollywood – mas também algumas outras produções ocidentais – diversificaram tanto o gênero do horror que ele já não tem mais aquelas características originais que o firmaram como tal.
O cinema de horror ocidental tinha monstros, fantasmas, suspense, susto, medo, lendas, estórias que mexiam com a nossa imaginação, como quando crianças ouvíamos as estórias de fantasmas do bairro. Hoje em dia – digamos de Jason, Krugger e Hannibal Lecter para cá – eles vêm recheados de sangueira, uma retalhação de gente sem fim, tortura, perseguição por “mérito” entre outros. As matanças de Sexta Feira 13 ou Hora do Pesadelo chegaram a tal absurdo que com o tempo quem assistia achava mais engraçado do que medonho, além de serem altamente previsíveis. Mas a partir de, talvez, O Silêncio dos Inocentes o horror carnificina recobrou sua sede de sangue e quis ficar mais sério… Seguiram-se filmes como Seven, os sete pecados capitais e Bruxa de Blair com seus psicopatas e feiticeiros fantásticos nos assustando, sim, mas com muito sangue. E esses citados têm roteiros excelentes, diga-se de passagem. Porém, outros descambaram para somente o sangue. Tanto é que o termo thriller tem sido mais usado para esse gênero do que o antigo horror.
Mesmo na década de 80 tivemos, é claro, sempre um filme aqui e ali que tentava manter o horror num nível mais clássico, como a releitura de Drácula por Coppola, o Drácula de Bram Stoker ou Frankenstein de Mary Shelley por Kenneth Branaugh, mais tarde A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça de Tim Burton (aliás, um artista que ainda faz horror, além de reinventar o gótico!), e Uma Entrevista com o Vampiro dos irmãos Cohen. Todos apostaram na beleza plástica do horror, com mais suspense do que carnificina, com sangue , mas com um tom mais literário na narrativa. Porém, o engraçado é que críticos e uma parte do público acostumados já à carnificina foram duros com esses filmes, dizendo até que foram bregas ou coisa assim.
Com o açougue instalado, o cinema ocidental (mais o americano, de modo geral) entrou numa violência desenfreada em todos os gêneros, inclusive no horror. Algumas produções ditas de horror se concentram somente na emoção que a imagem causa, deixando de lado a estória que deveria ser narrada. Quando muito, se concentram em explicar tudo pela luz da sociopatia.
Personagens como o Jason de Sexta Feira 13 seriam na verdade resquício de um arauto da moral protestante americana. Os jovens que primeiramente eram mortos eram justamente aqueles que queriam somente fazer sexo no acampamento (ou casa de campo) e fumar maconha. Os jovens que sobravam para combater o capeta de máscara eram nada mais nada menos do que os certinhos, os bonzinhos que se mantinham puros, não fumavam e nem bebiam e iam cedo dormir em suas caminhas. A teoria é muito longa para se aprofundar aqui, mas dá para perceber que essas estórias são o reflexo de uma cultura arraigada nesses valores e que aparece refletido nos filmes.
Sei que, sob esse prisma, também filmes como Albergue e Jogos Mortais, por exemplo, refletem a mais nova paranóia americana: ser torturado, mutilado e totalmente aniquilado por alguém de outro país ou totalmente estranho (algo como pessoas do Oriente Médio?). Em Albergue as vítimas eram escolhidas para serem mutiladas num clube fechadíssimo de sádicos. A vítima mais cara e cobiçada eram os americanos! Jogos Mortais mostra o comandante da carnificina num lugar aparentemente sem recursos, mas capaz de destruir suas vítimas escondido e ainda fazer troça delas. Lembram de alguém parecido na vida real? Parecido com a antiga paranóia dos americanos contra os russos…
Mas voltando ao assunto do cinema asiático, esse horror mais clássico que vem resgatando o horror-susto, em que as imagens mostram mais fantasmas, espíritos, lodo, sujeira, vento, chuva, Lua e menos sangue. Mesmo quando mostram sangue só o fazem depois de muito susto, muito personagem aparecendo do nada, assustando a gente na cadeira. Na narrativa esses filmes têm se concentrado mais nas lendas antigas de uma região – alguns filmes coreanos e tailandeses, como a lenda de Mak e Nak, linda, triste e assustadora – ou em alterações visivelmente mentais dos personagens principais – como alguns japoneses – ou ainda em medos da infância ou perturbações mediúnicas.
Estão, sim, aproveitando uma parte do mercado voltada aos fenômenos mediúnicos tão em voga, inclusive em novelas e seriados americanos, mas também resgatam aquele medinho gostoso dos antigos filmes ocidentais de horror. Filmes como Almas desencarnadas e O espírito são verdadeiras teses sobre a mediunidade e nos fazem lembrar aquelas estórias que a gente contava uns para os outros quando éramos crianças. Visões e Água Negra são assustadores mesmo, mas também têm uma estória inteligente, intrigante e comovente com o apoio das imagens; unem mediunidade, abalos psicológicos e vida urbana.
Além de fazerem o mundo rodar, os filmes de horror asiáticos nos mostram em quê somos todos iguais, não somente no acesso aos recursos cinematográficos, ou vida urbanamente globalizada, mas também que o medo nos aflige é parecido em qualquer canto do mundo. Mostram também, através desses recursos, que podemos nos reconhecer e identificar numa cultura diferente, traços de rostos, corpos e vozes diferentes que nos levam a experimentar sensações familiares.
sexta-feira, 2 de abril de 2010
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário